Discurso de termo de mandato
Exmo Senhor Presidente eleito da Câmara Municipal de Aveiro
Exmos demais autarcas eleitos
Exmos autarcas cessantes
Senhores Deputados
Minhas Senhoras e Meus Senhores
O povo de Aveiro votou e os resultados desse momento crucial da nossa democracia ditaram o termo do meu mandato e a eleição de um novo Executivo.
Queria hoje, certamente com o coração entristecido, mas com a consciência tranquila e uma irredimível esperança no futuro de Aveiro, dizer-vos o quanto foram gratificantes estes anos.
Não é este o momento para balanços de obra feita, para inventários de iniciativas e acções efémeras ou de consequências mais perduráveis, para o recordar de tantas emoções colectivas que pudemos partilhar ou para reportar os projectos lançados e em curso.
Nem tão pouco é o caso de recriminar alguém e encontrar bodes expiatórios para culpas próprias ou dissertar sobre as mil e uma explicações que formaram a opção de voto de cada um. Poderia parecer resquício extemporâneo de campanha e sinal de mau perder.
A democracia exerceu-se bem e Aveiro votou. Saúdo o Dr. Élio Maia e cumprimento a coligação vencedora. A mim, resta-me agradecer o fantástico tempo em que vos pude representar. Porque quanto ao mais, ensina o nosso poeta maior: “erros meus, alguma má fortuna” “amor ardente”, que às vezes tolda e nos exalta, mas não absolveu.
Hoje é o primeiro dia de recordações inebriantes de dois mandatos fecundos e este é o momento para protestar alguma gratidão cívica e pessoal.
Queira dizer-vos hoje, o quanta honra constituiu para mim ter sido Presidente da Câmara de Aveiro.
Queria dizer-vos hoje, que tive o privilégio de construir Aveiro com autarcas nas Juntas de Freguesia, excepcionais no seu desvelo, na sua abnegação, no seu obreirismo, na sua preocupação social includente.
Queria dizer-vos que beneficiei do trabalho e profissionalismo de um conjunto de funcionários e colaboradores zelosos e dedicados e que souberam sempre vestir a camisola de Aveiro, e de suar por ela, de serem extraordinários, mesmo sem as ditas horas.
Queria dizer-vos que os frutos bons destes mandatos não teriam sido possíveis sem a colaboração de muitas entidades e organismos do Estado, sem o trabalho inestimável das nossas associações e colectividades sociais, culturais e desportivas, sem uma comunidade estimulante e ambiciosa, sem cidadãos exigentes e intervenientes, de agudo sentido crítico e justa impaciência cívica, desesperando com as pequenas e incómodas ineficiências dos poderes municipais e impondo qualidade acrescida e bom planeamento aos grandes projectos.
Dizer-vos que tudo teria sido mais pobre, se não tivéssemos tido uma oposição tão rica e uma Assembleia Municipal tão participativa.
Queria dizer-vos que tive a oportunidade de conhecer homens e mulheres simples, mas de edificante grandeza humana, gente de rara nobreza de carácter, gente com uma tenacidade para lutar pelos outros interpelante, gente empreendedora e visionária, capaz de nos fazer sonhar e de os sonhos fazer.
Queria dizer-vos que as coisas boas deste mandato – e tantas foram – se devem ao Eduardo Feio, à Lusitana Fonseca, à Marília Martins, ao Domingos Cerqueira e ao Pedro Silva, vereadores com pelouros atribuídos. Aprendi imenso com eles. Aveiro deve-lhes muito. À sua entrega total e a desoras, à sua inteligência e sentido prospectivo, à sua capacidade de gestão e de diplomacia, à sua lealdade e iniciativa, à sua seriedade e sentido de responsabilidade, à clarividência política e ao destemor, a um aveirismo respirado e pulsado com respeito pelo património e pelo nossa nossa identidade mais essencial, mas, também, pela universalidade e pela antecipação do futuro.
E que elas também se ficam a dever aos restantes vereadores, o Dr. Miguel Capão Filipe, o Dr.Joaquim Marques e o Eng. Ângelo Pires que souberam sempre temperar as nossas propostas e decisões com a sua análise crítica e nunca deixaram que a divergência política minasse o respeito, a consideração pessoal e a amizade.
Estes foram anos excepcionais de que me orgulho e que a História avaliará.
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Meu caro Élio Maia
Ser autarca hoje em dia é cada vez mais um acto de coragem. Com uma economia persistentemente recessiva, uma voracidade noticiosa que diariamente nos expõe e questiona e uma cultura perigosa de descrença na política e nos políticos e um modismo de especial maledicência do poder local, ser autarca implica a assunção de muitos riscos, renúncias e algum estoicismo para lidar na praça pública, com toda a espécie de tropelias éticas e malfeitorias medíocres e impunes.
Fui autarca sem sentir sacrifício, porque foi uma honra poder servir o interesse público e deixo de ser autarca sem que me pese a consciência, porque nunca da honra abdiquei na sua prossecução.
Nestes tempos de torpor axiológico, de globalização dos problemas e paradigmas, de súbita consciência dos nossos limites ambientais, de perturbadoras novidades na estruturação e no valor do trabalho, de rupturas nas fronteiras da nossa condição humana, que ainda não sabemos se são rombos ou ganhos de humanidade, tudo marcado pelo frenesim prodigioso da ciência e exponenciado e acelerado pelas redes comunicacionais, é reconfortante mantermos alguns valores, alguns amigos, algum espaço vital.
Aveiro é o nosso espaço vital. A política trouxe-nos mais e valiosos amigos. E não nos apartámos dos valores que proclamámos quando tomamos posse. Partimos daqui para o mundo, mas trazemos o mundo de volta, para engrandecermos as nossas gentes e tentarmos ser mais justos e equitativos e exaurirmos menos a natureza. Temos uma responsabilidade ética e um imperativo de solidariedade para com os nossos semelhantes, mesmo se eles são diferentes e sobretudo se eles são menos capazes, mas também temos uma responsabilidade ética para com a vivencialidade da terra que deixamos aos vindouros. Cada vez mais, passa por aí, algures, o sentido do poder público autárquico. E pela educação, chave da compreensão e da inovação, da urgente qualificação, passaporte indispensável para a cidadania. Porque precisamos mais, cada dia que passa, de uma comunidade coesa e justa, de um território e uma economia sustentáveis, de uma cidadania mais exigente.
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Na hora da partida permitam-me que evoque um dos nossos oponentes nestas eleições, alguém que, perdendo, já tinha ganho o nosso respeito cívico e a nossa estima: o Dr. António Salavessa que, depois de muitos anos de combate autárquico irrepreensível, não conseguiu ser eleito. Vai fazer-nos falta a sua vigilância cívica activa. E permita-me que saúde, também, todos os vencidos desta disputa e sobretudo aqueles que estavam em funções autárquicas nas Juntas de Freguesia. A todos é devida uma palavra de apreço e de reconhecimento.
Sr. Presidente da Assembleia Municipal cessante
São já lendárias as sessões que vivemos nestes dois mandatos. A sua Presidência obrigou-nos a todos a um esforço acrescido, mas concluo tributando-lhe o mérito de, como ninguém, com a sua ímpar personalidade e argúcia política ter contribuído para dignificar o trabalho do nosso parlamento e a sua consolidação e de, com isso, obrigar o executivo a um melhor desempenho.
Dr. Élio Maia , Sr. Presidente eleito da Câmara Municipal de Aveiro
Quero especialmente cumprimentá-lo neste momento de passagem de testemunho.
Felicito-o pela vitória. E deposito nas suas mãos as chaves da porta da Câmara.
Por esta porta entrei com esperança e por ela saio com orgulho.
Sei que o anima o mesmo espírito e a mesma vontade.
Saiba que fui muito feliz nesta nossa casa.
E que desejo, sinceramente, que aqui encontre a mesma ventura.
Quando tomei posse, há sete anos e dez meses, disse que eram precisos os actos para as palavras fazerem sentido. E feitos os actos, valeu a pena o compromisso.
Fica, então o meu último acto como Presidente da Câmara Municipal de Aveiro, que é uma palavra para si: em nome de Aveiro, desejo-lhe as maiores felicidades e muito sucesso para o futuro da nossa terra.
Aveiro, Paços do Concelho, 22 de Outubro de 2005
Alberto Souto de Miranda

